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Berimbau

terça-feira, fevereiro 13, 2007

Leite jocoso

- Paulínea, venha já aqui!
Paulínia relutou em atender ao chamado de seu pai, mas acabou por consentir: foi até a sala de sua casa, onde este encontrava-se sentado e com o mesmo sorriso maroto de todos os dias, de todas as tardes neste mesmo horário. Não havia um único dia em que falhasse, salvo os finais de semana. Sempre assim, bastava o leiteiro anunciar sua chegada com sua campainha que o pai chamava de pronto Paulínea. Era sua diversão. Sua mórbida diversão. Quiçá a única razão que fazia com que o senhor de poucos cabelos ainda continuasse vivo.
Paulínea não agüentava mais aquilo. Tão logo o leiteiro, inadvertidamente, dava-lhe o sinal, o sofrimento de Paulínea começava. Seu pai passava minutos, às vezes horas, fazendo-lhe cócegas. Paulínea rezava para que alguém a salvasse daquilo. Era um inferno. Mais que o inferno. Preferia ser queimada. Ah, se preferia!
O tormento durou alguns anos.
Aquilo não poderia durar para sempre. Mas caminhava pra isso. Então, Paulínea notou, após quase uma década, que não seria socorrida. Decidiu dar cabo àquela situação achincalhante, vexatória e deselegante. Armada de duas lapiseiras, esperou na porta de sua casa o leiteiro passar. Quando este veio, ela o atacou. Decapitou-o facilmente. Nada mais fácil, mesmo.
Riu. Paulínea riu. Riu. Riu. E riu.
Riu até sufocar-se e morrer.
Os vizinhos reclamam até hoje da falta de um leiteiro. A mortandade da classe cresce a cada dia.

Cotidiano

Dia nublado, a ameaça de chuva era constante. Algumas gotas arriscavam-se a cair do céu. O toró não tardaria.
Em demasia, fuligem, fumaça e tudo o mais que se encontra numa grande metrópole.
Sim, era bom que chovesse.
Nessa tarde, andavam pelo centro da cidade. Faziam compras.
Adalgisa gastara todo seu salário em meias cor-de-abóbora. Renato, não. Não comprara nada. Não tinha dinheiro.
Um indigente. Apenas isso.
Ao fim da tarde, após um café que algum gentil senhor de chapéu côco que por ali passara lhes oferecera, tencionavam seguir para suas casas.
Renato quis olhar em seu relógio, mas este não existia.
Seis da tarde. Horário avisado pelo badalar dos sinos das catedrais.
- NÃO!
Ato súbito, Adalgisa joga-se no chão, contorcendo-se.
-Os sinos não!!!
Alguns transeuntes indignaram-se com tal cena vexatória. Não, aquilo não cabia em suas rotinas.
- Por favor, parem!!!
Adalgisa debatia-se no chão mais e mais. E, quanto mais debatia-se, mais curiosos e furiosos engrossavam a massa de espectadores do vil espetáculo.
-Pelo amor de Deus, não os sinos! ARGH! Não!!!
Sangue jorrava incessantemente das orelhas de Adalgisa. Seu corpo inteiro estava esfolado, mas ela continuava a contorcer-se em desespero.
- ARGH!
Não havia nem sombra das badaladas de há pouco, mas Adalgisa continuava seu show.
-PAREM!!!
Uma multidão assistia àquilo horrorizada, com um misto de ódio, repúdio e, principalmente, um mórbido deleite.
Alguns olhavam espantados para Renato, amigo da artista do horror, que assistia a tal cena impassível, com total frieza e tédio.
- Tsc. Ela sempre teve problemas com sinos.
A chuva limpou toda a sujeira.