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Berimbau

terça-feira, fevereiro 13, 2007

Cotidiano

Dia nublado, a ameaça de chuva era constante. Algumas gotas arriscavam-se a cair do céu. O toró não tardaria.
Em demasia, fuligem, fumaça e tudo o mais que se encontra numa grande metrópole.
Sim, era bom que chovesse.
Nessa tarde, andavam pelo centro da cidade. Faziam compras.
Adalgisa gastara todo seu salário em meias cor-de-abóbora. Renato, não. Não comprara nada. Não tinha dinheiro.
Um indigente. Apenas isso.
Ao fim da tarde, após um café que algum gentil senhor de chapéu côco que por ali passara lhes oferecera, tencionavam seguir para suas casas.
Renato quis olhar em seu relógio, mas este não existia.
Seis da tarde. Horário avisado pelo badalar dos sinos das catedrais.
- NÃO!
Ato súbito, Adalgisa joga-se no chão, contorcendo-se.
-Os sinos não!!!
Alguns transeuntes indignaram-se com tal cena vexatória. Não, aquilo não cabia em suas rotinas.
- Por favor, parem!!!
Adalgisa debatia-se no chão mais e mais. E, quanto mais debatia-se, mais curiosos e furiosos engrossavam a massa de espectadores do vil espetáculo.
-Pelo amor de Deus, não os sinos! ARGH! Não!!!
Sangue jorrava incessantemente das orelhas de Adalgisa. Seu corpo inteiro estava esfolado, mas ela continuava a contorcer-se em desespero.
- ARGH!
Não havia nem sombra das badaladas de há pouco, mas Adalgisa continuava seu show.
-PAREM!!!
Uma multidão assistia àquilo horrorizada, com um misto de ódio, repúdio e, principalmente, um mórbido deleite.
Alguns olhavam espantados para Renato, amigo da artista do horror, que assistia a tal cena impassível, com total frieza e tédio.
- Tsc. Ela sempre teve problemas com sinos.
A chuva limpou toda a sujeira.